Andando despretensioso pela rua, vejo um homem sentado na calçada. Vestido de terno, o senhor aparentava ter uns 60 anos. Percebendo o meu olhar fixo para o pranto incessante dele, o senhor se vira e me pergunta "Por que tanto olhas pra mim?". Nesse momento, percebi a chave da porta do choro do homem. Ele estava usando uma camisa vermelha por baixo do paletó. No peito da camisa velha e surrada, um distintivo de um clube estava bordado. As letras AFC grifadas garrafalmente no centro do círculo me despertaram o motivo de tanta tristeza. Algo havia acontecido ao América.
Como estava na rua, não assisti à nenhum jogo. Muito menos sabia que o América jogaria hoje. Meu receio de perguntar algo tentou impedir-me, mas a curiosidade era maior. "Senhor, o quê aconteceu? O América perdeu?" Com um ar de desprezo, o velhinho me responde "Perder não perdeu. Empatamos com o Macaé e...fomos rebaixados". Pensei em seguir caminho após saber do motivo do choro, mas me senti preso ao torcedor que sofria. Descobri que ele não tinha 60 anos, mas 70. O homem, portador de cabelos brancos e usando óculos estilo 'fundo de garrafa', me contava sobre o Carioca de 1960 e sobre a Copa dos Campeões de 1980. Me sensibilizei. Ele me contava com tanto entusiasmo que chegava a pensar que o América havia ganho o campeonato hoje.
Ao fim de tanta história, uma frase me pegou de surpresa: "Pela primeira vez, estou desistindo do América. Fui à todos os jogos da Série B de 2009, mas agora acabou. Não dá mais". Sem saber o que falar, me calei, vendo o senhor se levantar e seguir a rua. Com um lenço na mão direita enxugava as lágrimas. A mão esquerda estava no peito. Por cima do escudo. Por cima do coração.

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